Na minha ou na tua casa?
Vieste-me buscar na mota preta de sempre. Tiraste o capacete e abanaste a cabeça ao vento e a mão à minha janela. Desci pelas escadas para não esperar pelo elevador e corri até ti. Desmanchas-me o rabo-de-cavalo (como sempre fazes) demoras-te um pouco a olhar-me e mergulhas nos meus lábios. Intensamente delicioso. Abraças-me logo de seguida e levantas-me no ar a fazeres-te de herói e forte.
Vestiste a camisola da cor do mar e dos teus olhos e tudo me parece harmoniosamente combinado. Reparas que te olho de cima a baixo e dirigiste-me à mota todo convencido. Tonto.
Penduro-me contigo na máquina voadora, vais em direcção à marginal e saímos da cidade em menos de 5 minutos.
Nunca sei para onde me levas mas sei sempre que vou gostar, porque tens a capacidade de me surpreend
er em cada piscar de olho. Sei que enquanto enlaço os meus braços na tua cintura e o vento se quebra nos nossos corpos sinto o coração a fervilhar cá dentro e uma ternura mais que meiga a acariciar-me a alma.
Fecho os olhos. És meu. Não ontem, não hoje, não amanha, nem para sempre, mas neste instante em que te prendo contra o meu peito. Só Meu.
Trouxeste-me a um sítio tão vulgar como o Aeroporto. Rio-me.
“Porque me trouxeste até aqui?”
“Queria ter a certeza de que te prefiro a ti, do que a um avião”
“Hum?”
“Não que dês menos trabalho do que eles, mas tenho a certeza que és o meu avião preferido para as viagens da minha vida. Em ti vejo um mundo, um mundo que quero descobrir. Em ti encontro lugares secretos que quero desvendar. Sei que és tu o meio mais seguro, mais meigo, mais doce, mais inteligente, mais verdadeiro para a viagem da vida.”
“M…”
Tapas a minha boca com o dedo indicador da mão esquerda …
“Sei que podes não durar mais que o dia de hoje, mas enquanto existires e me quiseres ao teu lado, eu estou contigo porque sei que não existe nenhuma mulher no mundo capaz de me fazer sonhar, amar, viver a vida, como a mulher que encontro em ti, que tantas vezes se faz menina no meu colo e tantas outras anjo dos meus sonhos. És o meu avião.”
És incrível. Apaixonado, apaixonante.
“Achas que mesmo assim podemos um dia destes entrar num daqueles e irmos a algum lado?” Pergunto sorrindo.
“Não me parece de todo impossível. Já hoje, ou consegues esperar por amanha?”
“Na minha ou na tua casa?”
Silvia Amaral* 18 de Outubro de 2006
