“É como um dia cinzento, com chuva miudinha que não pára ao mesmo tempo que um vento furioso não pára de volver.
É um gelo que me entra pela pele directamente ao coração.
É um espelho que não cansa de me devolver uma estalada seca. Uma imagem horrível exterior do interior tenebroso em que me sinto.
É sentir-me defraudada a cada instante, reduzida, mínima…
Porquê? Não sei. Sei que não devia, que não era suposto sequer…
Mas a minha auo-estima mergulhou até ao mais fundo possível.
E não, não estou a afirmar nem o comento para que me dê palmadinhas nas costas.
É porque quero aprender a lidar com toda a insatisfação que tenho acerca de quem sou. Porque já nem sei chorar, nem surpreender, nem sentir mais do que um azedo amargo quando penso acerca de quem sou. (ou talvez era exactamente isso que queria que me acontecesse)
Umas asas? Uns patins? Uma prancha se Surf? Os meus pés muito rápidos sobre a praia?
E o encanto? E o coração a bater muito rápido? E os pés e as pernas a tremerem? E o friozinho na barriga?
Porque é que simplesmente me sinto amarga? Feia? Horrível?
Porque?
Porque é que em cada oportunidade me magoo mais? Porque é que não sei gostar de mim?
Porquê? Porque é que tu que moras dentro de mim, me deitas tanto abaixo, me fazes sofrer tanto, se tu és eu. Se eu sou o que tu és. Se é anti-natural a auto-flagelação, porquê?
Eu tento, eu luto, eu tenho pessoas maravilhosas ao meu lado a porem-me sempre para cima. E sei o quão cansadas já estão de exercerem força num peso pesado que não se mexe por si só. Mas eu tento, e o corpo apenas se arrasta e a alma é uma âncora presa num fundo escuro e dolorido.
È quase um desespero. Um grito mudo. Um berro estridente. Uns olhos marcadamente negros e a pele branca marcadamente rasgada. “
Ela disse tudo de uma só vez. Como um suspiro demoradamente cansado… e adormeceu nos meus braços.
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Sílvia Amaral * 26 Maio 2007