“Não entendo, porque a minha boca se habituou ao licor aveludado da tua e os meus lábios apenas sentem agora o sal das tuas palavras feitas saudade…
Não mereço uma resposta dessas, porque nós não devemos nada um ao outro a não ser sinceridade.
O que te grita aos ouvidos? De que areias é feito o deserto do teu silêncio?
Que pó tenho eu de engolir e que ventos tens de deixar atravessar-me?
Que bússola te regula os sentidos para tão longe de mim?
Não compreendo…
A minha gramática e o meu dicionário não incluem tanto antagonismo…
Não mereço…
A minha entrega e a minha simplicidade não integram tanta incerteza…
E, se um dia dei por mim a perguntar como te ajustavas tanto ao meu toque, hoje questiono-me como te adaptas tu à minha vacuidade, à imposição da minha ausência…
Divago e suspendo-me nas curvas dos pontos de interrogação da minha dubiedade…
Porque teimas tu em esticar ao máximo a distância que nos separa, porque forças tu tanto espaço vazio entre nós, porque reforças a instabilidade da teia de aranha que nos une… Porque calas cada eco das palavras, tecidas ao tom da sagacidade dos nossos desejos?
Não entendo e não mereço, mas aceito. Como quem aceita o Outono e o Inverno chegar… Como quem se resigna com a brevidade de cada segundo, e a certeza de que o tempo não pára nunca.
Aceito-te como és, totalmente, porque te tive e tornaste-te meu. E assim, aceito sem mudanças, a natureza pura e intocável da tua existência e identidade.
Não voltarás a ser meu, sinto-o, sei-o. Porque não quero desertos assentes na esperança vaga do oásis. Porque não sei viver com bússolas reguladas a sul. Porque não preciso de ser testada nas minhas qualificações enquanto ser humano e enquanto mulher. Porque não confio em ti. Porque fizeste levantar demasiadas dúvidas e incertezas quanto a quem és. Porque descobri que me bastam os passos que caminhamos de mãos dadas
Escorrem-me, escapando-se das mãos, o adormecer no teu sorriso, o amanhecer no teu abraço, o encontrar-te no virar da esquina do meu pensamento…
Remato-nos a ponto fechado, limitado às pegadas que cruzámos, às pernas que entrelaçámos, às palavras que entrançámos…
Até um dia, amor do ultimo dia de hoje…”
Escrito numa madrugada triste, de liberdade própria invencivel
* Silvia Amaral