Problema de Expressão
Tenho um problema de comunicação. Quando penso uma coisa, nunca consigo dizer exactamente o que sinto. Especialmente quando é preciso realmente dizer aquilo que sinto. É complicado de explicar. É um problema de comunicação que passa pela expressão. Não sei bem exprimir o que sinto e o que quero. Penso que a responsabilidade cai muitas vezes sobre o facto de não saber exactamente bem o que quero que a outra pessoa saiba. Por exemplo, eu realmente gosto muito de estar sozinha, mas no fundo odeio estar sozinha durante muito tempo. O que eu quero dizer quando digo “gosto de estar só, e que estou só porque quero”, é que não quero que ninguém esteja comigo por estar, prefiro estar sozinha. Que não gosto da imposição da presença de ninguém, nem de impor a minha. Por isso, sozinha não corro esse risco. Também digo muitas vezes que não gosto de compromissos, quando na verdade o que quero dizer é que odeio que as minhas expectativas sejam furadas. Prefiro comunicar que não espero nada, para provar a mim própria que não posso uma vez mais sair frustrada. No fundo, falhada. Também digo que gosto de ser independente, de ter a minha liberdade. Que não gosto que me perguntem onde estive, com quem estive, nem porquê. Na verdade, eu simplesmente não suporto que não confiem em mim, que duvidem de quem sou e dos meus princípios. Digo muitas vezes que preciso que cuidem de mim, quando na verdade sei que ninguém toma melhor conta de mim do que eu própria. Na verdade, só quero um pouco de atenção. Quando digo que estou mais ou menos, nem sempre me apetece dizer o porquê, mas digo-o na esperança que mo perguntem. É só uma maneira de saber que a outra pessoa se preocupa. Quando não quero mesmo falar respondo que está tudo bem, e não se pensa mais nisso. Também sou um bocado “desbocada” e digo coisas “que não devo”. Mas isso é raro. Só quando me sinto “em casa”. Falo de muita coisa abertamente. Dizem que é da profissão. E aí, o problema não é na minha expressão, é na aceitação dos outros. Brinco muito com as palavras, gosto de jogos. Mas só nas palavras. Na verdade, odeio jogos nas relações. É que aí, tenho de “brincar” com o meu problema de expressão, e dá tudo errado. Inclusive as relações. Falo como se tivesse muitas…
Talvez seja de eu ser Mulher, talvez seja inerente ao meu género. Ou talvez seja mesmo um problema meu. Este problema de comunicação. Talvez seja por isso que escrevo. É mais fácil. Alinha-se as ideias no papel. Apaga-se, revê-se. Vê-se como soa melhor. Testa-se o resultado. A falar já não é assim. Principalmente quando se fala do que se sente. Com quem se sente.
Sílvia Amaral * 31 de Outubro de 2007 *