Friday, January 30, 2009

A outra

Às vezes preferia continuar a ser “a outra”. Porque “a outra”, recebe a boa disposição, os braços abertos, o desejo e a frescura. “A outra” personifica o escape, a fuga do mundo, o lugar de abrigo, de procura da satisfação. São para ela a amabilidade que se esqueceu de levar para casa e na casa dela a intolerância e o desgaste ficam do lado de fora da porta. Para ela existem as piadas a necessidade de surpreender e de encantar. Para ela há mensagem ousada, a música carinhosa, a surpresa da flor no fim do dia. As mensagens antes do dormir a ela se remetem que o telefonema para casa foi longo e serviu de história de embalar. Se continuasse a ser “a outra”, continuariam a existir as escapadelas de domingo a noite, os fins de semana fugidos, os beijos roubados dentro do carro. Se ainda fosse “a outra” nunca te zangavas comigo, planeavas afincadamente um novo reencontro e seduzias-me. Se eu fosse “a outra” vestias ao fim de semana aquela roupa que gosto tanto, perfumavas-te e punhas o creme de azeia só para mim. Se eu ainda fosse “a outra”… Mas não sou. Por isso, telefonas-me porque assim tem que ser, porque é suposto, porque assim passou a ser rotineiramente. Assim, sais do trabalho e falas do trabalho comigo. Como passaste a partilhar mais tempo comigo, eu acabei por ocupar todo o que tinhas livre. Passei a deitar-me na tua cama e não precisaste de me mandar mensagem picante para uma noite de sonho. Como vens cansado e eu estou ali, as gargalhadas transformam-se em lamentações. Os braços abertos para ti, em exigências. Presenciando o cansaço diário da tua vida, desculpo-te a impaciência, deixo-a ficar do lado de dentro da porta. Sabes que te compreendo, que estou mais perto, que no fundo sou tua, esqueces-te do esforço. O seduzir, o planear, o roubar beijos atrás da porta, o fugir comigo para um desses prédios em construção, ficou esquecido com “a outra”. Passei a ser mais uma das tuas obrigações diárias e assim passaste a precisar de te escapar de mim. Mesmo que não propositadamente, no fundo desejas o desejo, a frescura, “a outra”…
Mas sabes, “a outra” continuo a ser eu, até tu quereres, outra …

* Sílvia Amaral * 30 de Janeiro de 2009

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Tuesday, January 20, 2009

Dias sem ti

Ela fechou-lhe os botões de punho. Endireitou-lhe a gravata bem combinada com o fato certo. Ajeito o portátil sobre o sobretudo e Devolveu os óculos em cima da cabeceira esquecidos. Desceram as escadas num compasso apressado e na soleira da porta, um beijo demorado. «Um bom dia amor». Mais tarde quando abrir o portátil terá no lado esquerdo um dos post-it amarelos com a letra apressada: “Os dias sem ti são todos iguais, são dias sem fim, são dias a mais”

Até para a semana…

* Sílvia Amaral * 20 de Janeiro de 2008

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Sunday, January 18, 2009

Anseio a vida atribuladamente divertida outra vez. Desejo que as palavras voltem a pincelar folhas brancas de papel. Que a fantasia volte rapidamente, que o brilho se torne mais claro, que o sopro da minha sensibilidade re-floresça. Que o encantamento se prolongue para além da ponta dos meus dedos e que se desenhe poesia. Anseio…

Sílvia Amaral * 19 de Janeiro 2009

p.s. - continuo viva, com saude, mas com o tempo mt mt apertado… vou tentar regressar mais frequentemente, sinto tanto a falta disto… *

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