Caminhar de pés descalços
Há tanta coisa que eu queria esquecer e não consigo. Tanto passado que gostava de apagar. Tantas horas, tantos minutos que gostava nunca ter passado. Há tantos gestos em falso, tantos tiros ao lado. Tantos gritos que ficaram guardados na voz para que nada mudasse. Foram tantos erros, tantas lágrimas, tanta falta de coragem. Foi tudo pelo ar e ficou tudo espalhado pelo chão. E tu, não compreendes… que estas coisas todas que trago cá dentro são nódoas negras, que não vão passar de um dia para o outro. São marcas que ficam, que doem. Tu foste embora, com uma parte da razão, e deixaste-me a lidar com a outra parte sozinha. Eu ajudei-te a aliviar a pressão do teu lado, a mudares de morada vezes sem conta e a encontrares alguma paz. Apoiei os teus escudos e as pontes que criaste e que te levaram para longe de mim. Amei com um amor incondicional, que ninguém algum dia mais sentirá por ti. Disso eu tenho a certeza. Contaste com o meu apoio, com o meu amor, com o seu segredo, como o lugar das tuas confidencias. Ouvi tudo e calei. Não julguei, não disse nunca que não. Estive lá e fui cúmplice. Aceitei, como quem não tem outra escolha, porque não consigo deixar de assim ser. Continuo hoje, a compreender e apoiar-te, podes perguntar a quem quiseres. E mesmo tentado todos os dias convencerem-me do contrário, sei que não deve existir melhor do que tu por aí. E por isso dói ainda mais. Dói saber que não estás no dia a dia, e dói ter de passar por tudo sozinha. Doi ter de crescer demais em tão pouco tempo. Custa suportar tanta tensão por escolhas que não fui eu que fiz e para as quais nada contribui. Custa ter de escolher. Custa ter de mudar tanta coisa. Sinto a tua falta e sinto acima de tudo falta de paz. Não é de jantares que preciso, nem de dias marcados para estar contigo. Isso não me basta. Não me basta ter de abdicar de rotinas para poder estar com quem amo segundo os seus fins-de-semana. Mas sei que não tenho alternativa. Desculpa se as poucas horas semanais que passamos juntos são sempre tão confusas, densas e tão tensas. Essas são apenas mais umas horas da minha semana. Não peço que deixes nada por mim. Não quero que tenhas de abdicar de coisas que gostas, só porque eu fui até hoje sempre obrigada a fazê-lo. Estaria a ser injusta e acima de tudo incoerente e não gosto de o ser. Só queria que compreendesses que deste lado do mundo as coisas não são assim tão simples. Há demasiadas coisas que talvez não compreendas, mas a guerra que viveste enquanto estiveste por cá, não terminou quando foste embora. A tensão continua no ar e acima de tudo estou mais sozinha do que nunca. Tenho responsabilidades que não são minhas, e tenho tanta coisa nas minhas mãos. Continuo sem saber quem sou e o que quero para mim. O futuro corre demasiado de pressa e eu ainda nem me recompus de tanta queda e ainda me dói muito levantar a cabeça e seguir em frente. Talvez o tempo ajude apaziguar cicatrizes da alma, mas ainda me custa olhar ao espelho e reconhecer-me. É difícil seguir em frente e não ver nada. Custa ter de caminhar de pés descalços…
E há simplesmente tanta coisa que eu queria esquecer… mas não consigo.
Sílvia Amaral * 29 de Janeiro de 2008